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novembro 30, 2004

Santana, o Ícaro dos tempos modernos

E voou, voou, voou até que o Sol lhe mandou um bafo de calor intenso, como aquelas tempestades solares que ocorrem de tempos a tempos. E agora? Agora quem paga por tanta loucura e irresponsabilidade são sempre os mesmos: nós...

É terrível ver um país sem grandes soluções político-partidárias no momento presente e sem tempo para que ocorra a renovação necessária pela depuração das impurezas existentes.

O PP dos insuportáveis iluminados. O PSD pós-Cavaco continua a ser um anátema para os que têm tentado pegar-lhe. O PS do Ferro outra catástrofe. Cumpriu a sua missão de líder da travessia do deserto para o que se lhe seguiu. O BE até vai fazendo umas intervenções interessantes mas que não passam disso mesmo. O PCP uma aberração delirante.

Estes últimos anos foram tão maus - metade do país não o abandonou porque não podia - que pior seria impossível (?). A não ser que tenhamos aspirações a ser a Argentina da UE. É preciso fazer abalar o sistema que já não serve as aspirações de todos nós. [Estamos fartos, será que ainda não perceberam?!]

Mas, acima de tudo, o que o país precisa não é de mais eleições e mais governos alternantes entre a esquerda e direita "moderadas" com a "igreja" a tentar [re]ganhar o peso que nunca deveria ter no nosso regime. O país precisa mesmo é de uma alma nova. De um desígnio comum que o faça acreditar com segurança e esperança no futuro. Que o faça crer que há coisas mais importantes na vida do que o material imediato. Noutros tempos chamar-se-ia revolução ao que é necessário. Não a das balas, dos canhões, dos cravos, dos beijinhos e abraços, mas sim a das mentalidades.

E não volto mais a falar de política neste espaço que optei por dedicar às crónicas dos que estão longe...

Miguel S.

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Moçambique: status quo ante...

Em vésperas de mais umas eleições em Moçambique, gostaria de tecer algumas considerações sobre as mesmas e a minha perspectiva pessoal do futuro algo sombrio que se poderá abater sobre o país, sobretudo se apostar na continuidade. Considerações estas por alguém que conhece o país do Rovuma ao Maputo e lá passou quase 20% da sua existência na década de 90 tendo convivido de perto com os macuas, makondes, muanis, chuabos, rongas, xanganes, entre outros...

Confesso que após o que vivi nas eleições de 1999 e todo o circo montado, espero que desta vez os resultados eleitorais não coloquem os ovos todos no mesmo saco e surpreendam-se a eles próprios rumo ao progresso e desenvolvimento numa democracia de juri e de facto com o fim de algumas anomalias.

Sobre o Dhlakama não vale a pena falar muito. Todo o seu passado profusamente conhecido e difundido pelo "sistema" fala por si. As grandes alterações registaram-se no seio da Frelimo.

Assistiu-se em finais da década de 90 mas sobretudo no início do século ao definhar da ala moderada e reformista da Frelimo. Afinal os escândalos sucediam-se. As mortes também. Impossível de dissociar, quanto mais não seja enquanto exercício mental, os homicídios do Administrador português do BIM e homem de confiança de Jardim Gonçalves, de Carlos Cardoso e Siba Siba de uma possível conspiração. Afinal as suas mortes tiveram todas um denominador comum: o sector financeiro moçambicano. Mas adiante que não vale a pena falar muito do que não se conhece...

Falou-se muito, em determinada altura, da perca de influência de Chissano no seio do partido com a estratégia do mesmo a sofrer diversas alterações. Muitos eram os descontentes com algumas das acções reformistas de Chissano. Afinal, foi com Chissano que a Frelimo mais se aproximou da Renamo, foi com Chissano que o país se abriu ao exterior, foi com Chissano que se apostou em gente da terra para governar as Províncias (autêntico tiro no pé) e foi ainda com Chissano que se procurou encostar os homens das armas e rústicos pelos homens com estudos e educados. Mas tudo tem um preço. A linha dura do partido acabou por vingar contra uma das mais sérias candidatas à sucessão de Chissano: Graça Machel. A única mulher, provavelmente, a ter sido 1ª Dama com presidentes de diferentes países (Moçambique e África do Sul). A sucessão de Chissano pelo "homem do cachimbo" apanhou muitos de surpresa e foi um autêntico balde de água fria para quem achava que Moçambique tinha encontrado o caminho do desenvolvimento, independentemente das ineficiências e defeitos do "sistema".

O "homem do cachimbo" é apenas o pai do famoso 24/20. Um anti português básico e primário. Este verdadeiro crâneo inventou esta medida que consistia em dar aos "colonos" portugueses 24h e 20Kg de bagagem para abandonarem o país no período quente do início da segunda metade da década de 70... Foi igualmente o pai dos famosos campos de "reeducação" na Província da Niassa para os então designados "eufemisticamente" por "desempregados". Não vou escrever aqui muito mais sobre isto. A história do país dos últimos 30 anos será escrita algum dia a bem da verdade.

E é este senhor que muito provavelmente ganhará as eleições presidenciais e legislativas em Moçambique. Pobres dos meus [grandes] amigos moçambicanos.

Miguel S.

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novembro 29, 2004

Portugal, Portugal?

É com alguma perplexidade que nós, deste lado, vamos acompanhando o que vai acontecendo na "metrópole". Nada melhor do que parafrasear o refrão da música de Jorge Palma de há 22 anos atrás...

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Não querendo ser derrotista, confesso que parte das razões para este auto-exílio se prendem com o facto de estar farto de Portugal e do surrealismo reinante em diversos domínios do nosso (agora vosso) quotidiano.

O XVII Congresso do PCP traduziu-se na morte anunciada do que restava do comunismo militante e conservador na Europa Ocidental. Não percebi a viragem à esquerda do partido através da eleição do Jerónimo de Sousa por muitas ou algumas reflexões que faça. Muito menos o ar de muitos dos congressistas. Por quantas mais legislaturas estará o PCP representado no parlamento nacional? 2? 3?... Não é que lhes ache particularmente grande piada. Sobretudo depois de aos 17 anos ter ido à Bulgária ver o que era o comunismo e sofrido um choque de realismo que me curou das tendências de esquerda mais à esquerda. Mas sempre eram uma voz desagradável para quem quer que estivesse no poder.

Os últimos acontecimentos em Portugal não encerram, em si, nada de particularmente relevante a não ser a confirmação do nível de degradação a que chegou o sistema. Há que fazer algo a bem da continuação da [alguma] credibilidade que as instituições que nos representam deverão ter... Mas lá que a primeira metade da presente década ficará conhecida na história de Portugal como uma das piores, é bem provável.

Como cantava Jorge Palma, o maluco, "enquanto ficares à espera, ninguém te pode ajudar".

Para quando o murro na mesa?

Miguel S.

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novembro 28, 2004

Romance do negro que não voltou

1

Um dia
mãe negra começou a inchar
a inchar, a inchar.

Ih!
Sua barriga ficou assim,
grande cuma quê...

Depois
nasceu negro.
E barriga de mãe negra
ficou piquena
outra vez.

Nasceu negro
e barriga de mãe negra
ficou piquena outra vez.

2

Negro quando nasceu
era branco.
Mas depois
ficou negro.

Meu Deus!
Num sei qui lh'aconteceu.

Negro era branco
e ficou negro.

3

Veio seu Padre
lá da Missão.
Deitou água nele
e baptizou.
Antão
negro piqueno
ficar cristão.

Mas ficou sempre
negro cuma quê...

4

Lá no mato
negro brincou,
cresceu.

Lá no mato
negro crescia,
panhando gala-gala,
tingolé
e maçala.

Caçando passarinho,
roubando ovos do ninho
da galinha
da muiér do soba Kutulú.

E negro crescia
cum outro piqueno.
E negro num via
qu'ele era negro,
negro cuma quê...
Mesmo quando tomava
banho no rio,
olhando jacaré
era sempre negro
negro cuma quê...

5

E negro piqueno ficou grande.

Mais nada.


Orlando de Albuquerque em Poesias de Moçambique

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novembro 26, 2004

Foto de fim-de-semana

Miguel S.

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novembro 25, 2004

[S]indiquê?!

Agitado o dia de ontem. As posições das peças no tabuleiro estavam previamente definidas, como convém neste tipo de ambientes onde se arrancam orelhas [a alguém] como quem descasca uma laranja. O cenário estava montado. Os laranjas, os verdes, os azuis e os amarelos estavam já arrumados quando chegámos. Sentámo-nos na tribuna de honra que a palestra já ia adiantada, oyê! É giro sermos nós, uma vez na vida, os atrasados onde chegar-se 2 horas depois é normal.

Pernas curtas, barriga grande e redonda em claro contraste com a cabeça pequena, o bispo vermelho vociferava algumas coisas imperceptíveis a quem do português apenas lhe conhece o nome e a cor. Tornou-se assim [mais] fácil, ya, empurrar o rebanho para junto do riacho inquinado pelos modelos falidos dos barbudos recalcitrantes.

As torres brancas, únicas peças sobrantes no tabuleiro inclinado pelo peso da manipulação, trocavam frases ininteligíveis para os que retorquiam com um ya ao abu. Frases e sorrisos próprios dos destemidos perante a eminência do colapso, mas com o motor ligado qu'isto d'heróis é d'outros tempos. Até porque nunca saberíamos dizer ya ao abu...

Saímos do local parecíamos uns verdadeiros elefantes, não pela velocidade com que abandonámos o local mas mais pelo tamanho das trombas. Estratégia [re]definida e uns copos mais tarde tudo parecia novamente normal: o mar é cinzento, o céu preto e a terra vermelha. Afinal discutira-se o quê durante a tarde?

Miguel S.

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novembro 24, 2004

150, sem parar

A noite tinha sido longa. 7:46 da manhã e estava a ir para a cama. Já nem me lembrava [da hora] que tinha prometido andar com o Sim o domingo todo a fazer de cicerone, função oblige... Ah que se lixe! Optei por ficar a dormir. Bem que m'entalei!

Pouco passava das 10 e bateram-me à porta com uns valentes murros. Aqui não há campaínhas e quando as há não funcionam. Nem queria acreditar. Deixei-me ficar. Mais murros. "Sim!?" gritei a meio gás, "Epá, ainda estás a dormir?" disse o Alm no seu tom sempre cool. Abri a porta semi nu com a braguilha dos calções a segurá-los, descalço e óculos escuros para não se verem as olheiras. "Grande sacana!", pensei. A noite toda a dançar kwassa kwassa, passada, kizomba, oyê! e este animal a acordar-me de "madrugada"!? Meio kota já não tem a nossa pedalada. "Então como é? Adormeceste não é?" sorriu com o fumo a sair-lhe por entre os lábios. "Vens ou não vens? Espero por ti no hotel? É melhor não é?" perguntou numa de "não me lixes que não me apetece nada ficar o dia todo com estes cromos". "Ya! Já lá vou ter..." humpf! mas que seca.

Depois do café, lá fomos a alta velocidade, 150 sem parar. Óculos escuros sem tirar, AC no máximo e música para ver se não falavam muito... Curto as altas velocidades na estreiteza destas estradas. O capim grande. As curvas. A palhota ao virar da curva. O infinito da paisagem. Passámos pelas bases. Os militares junto à estrada num domingo tórrido. Terra, muita terra no ar após a nossa passagem.

Finalmente a fronteira. Aproximou-se o OD, vulgo Oficial de Dia. Deixou-nos avançar. Desolação total. A terra de ninguém não tinha mesmo ninguém. As barracas vazias, não havia carne de caça, nem garrafas de cerveja de 1 litro, nem mandjevo, nem raízes, nem sequer o célebre pau. Mas dava para ver a bandeira azul marinho com uma estrela amarela maior e outras mais pequenas do país que há poucos anos mudou de nome. Ali, a 2 metros de nós. Fomos a uma barraca onde uma miúda com medidas generosas e poucos trapos no corpo lavava uns trapos num alguidar. À volta a barraca improvisada com o que havia à mão. Umas chapas de zinco, as grades de cerveja vazias a servir de mesa, uns bancos mal acabados e, para grande surpresa nossa, a possibilidade de entrada ilegal no outro país através da barraca! Ficámos a olhar para o posto fronteiriço com a cancela e arame farpado já dentro do território deles... Pirámo-nos que a cerveja e as gasosas estavam quentes.

Abrimos rumo à cidade para espanto dos mesmos militares. Directamente para a praia não sem antes fazer uma incursão pelos bairros. O Sim roncava, dizem. Deve ter sido dos buracos e o baloiçar que provocam. O seu ajudante de campo também roncava. Com o nosso jipe em alta o Alm ficou para trás. Ainda deu tempo para as vendedoras de estrada mandarem os beijinhos da praxe, piscarem o olho, rirem-se com falso pudor. A praia. Que suja! O Sim e o Bart curtiram, ya. Estava cheia. As barracas, a cerveja gelada, o mulherio interminável. Apanhámos seca. Convencemos a malta para irmos ao caldo.

Hummmmmm estava bom! Caldo de garoupa, com jindungo, mandioca cozida e banana pão... Aquilo é que soube bem. O Sim adorou, assim como o Bart e o Alm. Os outros nem sei que não estava preocupado com eles. Não passavam de meros penduras sem interesse de qualquer ordem, incluindo o estético. Ao longe, do outro lado da "barraca", as do costume da capital em business na cidade. Também no caldo. Com os do costume. Acelerámos o fim do repasto. Ficámos com os 150 na memória. Estávamos fartosssss do Sim, do Bart e Cª Lda. Invocámos a sesta por sabermos serem dessa estirpe. Eles foram, nós continuámos, na nossa.

Miguel S.

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novembro 22, 2004

O Primeiro

Há sempre um primeiro. Cá está ele. Estreei-me [finalmente] nos Blogs. É capaz de ser giro. Reveste-se de particular importância para quem está longe, muito longe e vai podendo assim lançar umas palavras ao alcance de algumas tecladas. Espero que gostem.

Yono.
Miguel S.

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