A noite tinha sido longa. 7:46 da manhã e estava a ir para a cama. Já nem me lembrava [da hora] que tinha prometido andar com o Sim o domingo todo a fazer de cicerone, função oblige... Ah que se lixe! Optei por ficar a dormir. Bem que m'entalei!
Pouco passava das 10 e bateram-me à porta com uns valentes murros. Aqui não há campaínhas e quando as há não funcionam. Nem queria acreditar. Deixei-me ficar. Mais murros. "Sim!?" gritei a meio gás, "Epá, ainda estás a dormir?" disse o Alm no seu tom sempre cool. Abri a porta semi nu com a braguilha dos calções a segurá-los, descalço e óculos escuros para não se verem as olheiras. "Grande sacana!", pensei. A noite toda a dançar kwassa kwassa, passada, kizomba, oyê! e este animal a acordar-me de "madrugada"!? Meio kota já não tem a nossa pedalada. "Então como é? Adormeceste não é?" sorriu com o fumo a sair-lhe por entre os lábios. "Vens ou não vens? Espero por ti no hotel? É melhor não é?" perguntou numa de "não me lixes que não me apetece nada ficar o dia todo com estes cromos". "Ya! Já lá vou ter..." humpf! mas que seca.
Depois do café, lá fomos a alta velocidade, 150 sem parar. Óculos escuros sem tirar, AC no máximo e música para ver se não falavam muito... Curto as altas velocidades na estreiteza destas estradas. O capim grande. As curvas. A palhota ao virar da curva. O infinito da paisagem. Passámos pelas bases. Os militares junto à estrada num domingo tórrido. Terra, muita terra no ar após a nossa passagem.
Finalmente a fronteira. Aproximou-se o OD, vulgo Oficial de Dia. Deixou-nos avançar. Desolação total. A terra de ninguém não tinha mesmo ninguém. As barracas vazias, não havia carne de caça, nem garrafas de cerveja de 1 litro, nem mandjevo, nem raízes, nem sequer o célebre pau. Mas dava para ver a bandeira azul marinho com uma estrela amarela maior e outras mais pequenas do país que há poucos anos mudou de nome. Ali, a 2 metros de nós. Fomos a uma barraca onde uma miúda com medidas generosas e poucos trapos no corpo lavava uns trapos num alguidar. À volta a barraca improvisada com o que havia à mão. Umas chapas de zinco, as grades de cerveja vazias a servir de mesa, uns bancos mal acabados e, para grande surpresa nossa, a possibilidade de entrada ilegal no outro país através da barraca! Ficámos a olhar para o posto fronteiriço com a cancela e arame farpado já dentro do território deles... Pirámo-nos que a cerveja e as gasosas estavam quentes.
Abrimos rumo à cidade para espanto dos mesmos militares. Directamente para a praia não sem antes fazer uma incursão pelos bairros. O Sim roncava, dizem. Deve ter sido dos buracos e o baloiçar que provocam. O seu ajudante de campo também roncava. Com o nosso jipe em alta o Alm ficou para trás. Ainda deu tempo para as vendedoras de estrada mandarem os beijinhos da praxe, piscarem o olho, rirem-se com falso pudor. A praia. Que suja! O Sim e o Bart curtiram, ya. Estava cheia. As barracas, a cerveja gelada, o mulherio interminável. Apanhámos seca. Convencemos a malta para irmos ao caldo.
Hummmmmm estava bom! Caldo de garoupa, com jindungo, mandioca cozida e banana pão... Aquilo é que soube bem. O Sim adorou, assim como o Bart e o Alm. Os outros nem sei que não estava preocupado com eles. Não passavam de meros penduras sem interesse de qualquer ordem, incluindo o estético. Ao longe, do outro lado da "barraca", as do costume da capital em business na cidade. Também no caldo. Com os do costume. Acelerámos o fim do repasto. Ficámos com os 150 na memória. Estávamos fartosssss do Sim, do Bart e Cª Lda. Invocámos a sesta por sabermos serem dessa estirpe. Eles foram, nós continuámos, na nossa.
Miguel S.
Deixado por Miguel S.
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