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dezembro 31, 2004
Ireninha
O primeiro Natal sem ir à sua casa.
O sorriso sempre pronto com o olhar meigo permanentemente disponível ao abrir a porta. Os arranjos de flores por toda a casa. Todos os anos era assim e foi assim até à última vez em que estivemos juntos. Na entrada, na cozinha, na sala de jantar, nos quartos, nas varandas… O sumol de ananás e a água do luso a marcar sempre presença, assim como as mulatinhas menos frequentes nos últimos tempos. As Selecções do Reader’s Digest na casa-de-banho (sorrio ao pensar nisto porque ao longo dos anos era sempre lá que estavam). A família à volta da mesa, quatro gerações em conjunto. O bacalhau, a roupa velha, os rojões, o arroz torrado no topo, a broa de avintes frita, os torresmos, as tripas, a galinha assada no forno como só ela sabia fazer, o bolo de mármore, o ouriço e tantas coisas mais que só alguém com o seu saber de décadas sabia fazer de forma tão perfeita. O cabelo sempre arranjado, as unhas sempre pintadas e o colar de pérolas (não interessa se eram verdadeiras ou não) ao peito. As histórias de outros tempos. De tantas vivências. A vivacidade que incutia ao relato de cada uma como se estivesse a vivê-las uma vez mais. Já adulto e a chamar-me sempre “meu menino”. O acenar em cada despedida da varanda.
Ficam os caramelos espanhóis que trazia sempre na carteira pronta para as guloseimas da praxe, nos já longínquos verões de Espinho. Ou as caixas metálicas antiquíssimas forradas a papel vegetal onde remetia a tempos as bolachas e biscoitos que fazia para a família toda (as bolachas belgas, os bolos de azeite, as bolachas com amêndoa circulares, as bolachas circulares sem meio, as rectangulares com pedaços de amêndoa deliciosas com chá), os bolinhos de coco, as mulatinhas, o ouriço da mesma massa das mulatinhas com amêndoas cortadas em tiras espetadas no ouriço, a doçaria toda que dominava, a marmelada, a cozinha do norte de quem natural de Matosinhos guardou um saber impressionante da arte de bem cozinhar (os rojões eram divinais). Ficam as corridas com os chinelos de pano a alta velocidade no soalho de madeira na casa de Viana do Castelo. A primeira vez que vi fazer pipocas naquela cozinha enorme da casa de Viana.
Apesar de ser o único de Lisboa, adorei conhecê-la. Teimosamente decidiu não chegar aos cem conforme tínhamos combinado. Nos últimos tempos sempre me dizia a cada despedida que seria a última vez que me veria. Foi tudo tão rápido. Estava em África. Fui vê-la e não a vi. Fiquei triste.
Um grande beijo e abraço do seu neto.
Miguel S.










