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janeiro 29, 2005
O puto Q.
A única razão pela qual nutria alguma simpatia pelo puto Q., devia-se à forma como o vi aquando do enterro do seu pai.
O velho Q. era um dos melhores. Cumpridor e grande trabalhador. Impecável em tudo, até no relacionamento. Sorria sempre, mesmo sem perceber bem o que lhe dizíamos pois era mais dado ao Lingala e Kikongo.
Estava o velho Q. a ser enterrado, depois de muitas voltas lá dentro, quando reparei no puto Q. sentado à beira da picada com as mãos na cabeça e a chorar com grande intensidade. Aproximei-me. Disse-me que não sabia o que iria ser deles daí em diante. O pai era o único que ganhava lá em casa e ele era o mais velho cabendo-lhe agora a responsabilidade do sustento para a viúva e irmãos menores. Tive pena do puto de 20 anos. Franzino. Desempregado. Estrábico. Dei-lhe emprego em honra do pai e para ajudá-los. Tornou-se também ele um bom funcionário.
No regresso de férias fui posto ao corrente, entre outros assuntos, das movimentações de trabalhadores. Fui surpreendido com o pedido de demissão do puto Q. Afinal, desde que entrara na empresa sofria pressões familiares. Porque tinha sido graças a eles que tinha conseguido emprego, diziam-lhe, e que não acreditavam que ganhasse tão pouco. De certeza que ganharia muito mais! Andava a escondê-lo da família. E que por isso tinha que dividir com a família do pai e com a viúva. Começaram a ameaçá-lo de morte. Optou por se ir embora...
Yono.
Miguel S.










