A caminho do Joaquim Portugal, a passagem estreita com o cenário algo alterado. O Japão foi-se. No seu lugar uma reles e vulgar mercearia. Não é que o Japão não fosse igualmente reles e vulgar, mas sempre era o Japão!
O que era afinal o Japão? Nada mais do que "a" discoteca africana de bairro dentro da cidade. Algo do além. Estrategicamente bem localizada, na confluência dos bairros 4 de Fevereiro e A Luta Continua com a parte urbanizada da cidade, situava-se no fim da travessa que ligava a Rua de Macau à Rua da Prisão até à Duque de Chiazi. Uma varanda a um metro de altura do passeio decorada com lâmpadas amarelas e vermelhas a toda a extensão, com uma esplanada geralmente cheia: de profissionais zairenses e de "procuradores" de infortúnio. À entrada, as ofertas costumeiras. Porque outra razão iriam brancos a sítio tão pouco frequentado por eles? A música sempre estridente, kwassa kwassa claro!, a sair de umas colunas enormes nos cantos para um espaço na penumbra iluminado apenas pelas luzes do bar. O bar era apenas um buraco na parede da sala com uns 3 metros de largura e meio metro de altura, com muitas grades iluminado com umas 2 lâmpadas normais, sem candeeiro. Lá dentro uma arca frigorífica e um barman invariavelmente a dormir, independentemente do som que até faria acordar os mortos mais distraídos.
De bom tinha o Japão a cerveja zairense em garrafas de 1 litro (Turbo King, um must!) e o facto de uma pessoa lá dentro não se sentir branco apesar de sermos os únicos. Era a descontração total dos que não tinham dez dólares para ir às discotecas normais. Ou isso ou a apresentação adequada. Ali ia qualquer pessoa. Foi lá que vi uma das cenas mais inesquecíveis desta passagem por cá: um tipo já meio grosso a dançar kwassa kwassa de uma forma que nunca antes tinha visto. Provavelmente zairense, pois são eles os pais deste estilo de música. Ele dobrava-se todo como se não tivesse ossos com uma garrafa quase cheia e aberta de Turbo King na cabeça. Ele deitava-se no chão de costas com ela na cabeça e dançava deitado, pernas dobradas. Ele levantava-se, contorcia-se, eu sei lá! e a garrafa sempre no sítio. Depois o malabarismo dos cigarros. Na escuridão, ver a brasa da ponta do cigarro desaparecer na boca dele para depois voltar a aparecer tudo num jogo de língua, deixou-me espantado. Tanto mais que ele deveria estar grosso. Completamente.
Chamavam ao Japão o antro. Não porque o conhecessem mas por terem ouvido falar ou terem reparado no espaço de passagem. Lembro-me das fortes críticas vindas de alguns sectores a propósito daquela deslocação, coisa que nunca me fez perder o sono. As pessoas [algumas pelo menos] continuam sem perceber a diferença entre ir aos locais pelo puro prazer da descoberta do desconhecido e o mandar-se o motorista buscar uma puta qualquer para passar a noite...
Fica assim o bas fond da cidade mais pobre e nós sem o local apropriado para praxar os que chegam [sobretudo os que nunca estiveram em África].
Sayonara Japão.
Yono.
Miguel S.
PS-Para memória futura. A 1ª vez que lá fomos foi pela mão do ancião Giovanni [quando ainda o era]. Para além dele, o A., o R. também conhecido por Lucas [ahahahhahahaha] e eu. Da 2ª vez, o faquico, a anaquica, o programador e eu. Convencemos momentaneamente o programador que a noite por cá era só daquilo.
Deixado por Miguel S.
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