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maio 27, 2005

C., um caso difícil

parte 1

Era puto quando cheguei a Pemba, naquela que foi a minha primeira grande aventura por terras d'África. No início do ano de 1995 ainda se viviam tempos de uma estabilidade relativa no norte, após décadas de guerra, criando um ambiente único para quem do continente apenas conhecia o Kruger, na passagem de ano de 1991 para 1992, na desenvolvidíssima África do Sul de De Klerk já no período de transição pós fim do Apartheid, umas [ainda possíveis] voltas a pé por Small Street e área envolvente, as hoje abandonadas SunTowers e a magnífica viagem de Joanesburgo à entrada do Kruger passando por Pretória. Férias idílicas de uma África que vai rareando. Quem conheceu o hinterland há uns anos atrás, nota bem a diferença: Suazilândia, Malawi e Zimbabwe para citar três exemplos de países que decaíram significativamente por razões diversas.

Na altura Moçambique representava uma grande aventura, sobretudo quando o destino não era Maputo. Um teste de resistência para todos nós, putos e kotas. Para a malta da minha idade, a geração perestroika/glasnost, Moçambique, entre outros motivos, representava a possibilidade única de poder viver presencialmente a mudança de um regime marxista-leninista com economia planificada para uma democracia com economia de mercado, era a oportunidade única de poder viver as mais diversas alterações sociais/institucionais/organizacionais e outros -ais, cheirar um pouco do nosso passado ainda e sempre bem visível, viver os primeiros passos de um país a renascer das cinzas após a ONUMOZ.

Yono.
Miguel S.

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Comentários

Claramente que a referência aos "kotas" me deve dizer respeito.
Como a referência aos "putos" lhe deve dizer respeito a si.
Mas foram tempos de grande aprendizagem, quer para os "putos", quer para os "kotas". E por isso inesquecíveis
Lembrar como foi possível num tempo e num espaço ligados ao "incomum" construir muito daquilo que era comum nas organizações do mundo dito desenvolvido.
Foi bom em Pemba, foi excelente em Quelimane, foi assim-assim quando penetrámos na dita "civilização" africana de Maputo.
O Rui é um bom exemplo de como é possível ser igual a si próprio, na exigência e na qualidade que a competência requer, estejamos em Pemba, em Quelimane, em Maputo, e presumo que também em Cabinda...
Duas últimas notas dessa África a que penso não voltar, mas que de forma alguma posso esquecer:
Hoje foi a enterrar em Monção o Adriano Carreira (o da Engil, lembra-se?) vítima de uma acidente de viação em Moçambique, terra a que teve de voltar, e que penso teria de o ver morrer pelo apego que tinha a essas raízes.
A segunda, o ter estado esta semana em Oslo, com o Bjorn, e compreender que eles sabem melhor do que nós tudo aquilo que se passou, e que hoje reconhecem um trabalho que muito gozo nos deu desenvolver. Gozo e orgulho.
E isso nada apaga
Ulisses

Publicado por: Ulisses Pereira em maio 27, 2005 08:34 PM

Foi mesmo de grande aprendizagem, profissional e pessoal - também tive sorte com o mestre que me tocou em início de carreira :). Termos conseguido fazer algo a partir do nada e, sobretudo, aprender a relativizar tudo na vida sem que com isso se percam as forças e vontade necessárias para se ir sempre mais longe.

Coitado do Adriano! Claro que me lembro dele!... Coisas nas quais nunca pensamos mas que vão acontecendo.

A notícia do Bjørn deixa-me bastante satisfeito. O tempo é fantástico pela forma como torna tudo tão mais claro.

Um abraço e beijinhos para o clã ;)

Publicado por: Miguel S. em maio 27, 2005 11:02 PM

Presumo que já adivinhou onde esta história que hoje comecei vai terminar... Foi o episódio que mais me marcou em Pemba. Pela idade, pela inexperiência de vida, pelo contexto, pelas circunstâncias em que nos encontrávamos, pelas peripécias e pela necessidade que sinto de realizar aqui no blog a catarse espiritual do muito que guardei destes anos. Há momentos em que temos de transferir os arquivos velhos do disco duro para um qualquer zip que se perca algures no esquecimento.

Publicado por: Miguel S. em maio 27, 2005 11:08 PM