- O Sr. J. pede para falar consigo. - informou-me a G. ao entrar no gabinete.
- Não conheço nenhum J.. O que quer? - perguntei sem tirar os olhos de mais uma desgraça em forma de participação.
- Não quis dizer. Diz que é pessoal.
- Mas eu não conheço nenhum J.. Não o recebo, não tenho tempo.
- Mas já é a terceira vez que cá vem. - insistiu a G.
- Está bem pronto, mande lá entrar. Não, espere. Eu vou lá fora.
Ao sair do gabinete deparo-me com o tal Sr. J., completamente fardado, de baixa estatura e, ainda por cima, deficiente fazendo-se deslocar com a ajuda de duas muletas. Percebi logo ao que vinha.
- O senhor é que é o Sr. J.? - perguntei dirigindo-me ao senhor, único estranho na sala...
- Sim sou. - respondeu enquanto ajeitava os óculos enormes, completamente desproporcionados.
- Acompanhe-me se faz favor.
Junto à sala onde o recebi, apercebi-me da dificuldade do homem em fazer-se deslocar até ao local onde o aguardava. Já em pé e a deslocar-se com as muletas, percebi que a perna direita tinha menos uns 15 cm do que a outra e completamente deformada. Penoso.
- Posso sentar-me aqui?
- Claro que sim. Então? Em que posso ser-lhe útil?
- Eu vim aqui porque não tenho mais onde recorrer. Nós estamos mal. O meu director não está cá e estou mesmo muito aflito, por isso é que vim ter consigo a ver se me desenrasca. Não tenho mesmo nada nada nada em casa. Nem um kwanza. E tenho filho doente, com malária cerebral e já é a terceira vez que cá venho. Peço muito a sua ajuda, com qualquer coisa pelo menos para ver se consigo fazer viajar o miúdo.
- E quanto é que o senhor precisa neste momento para se desenrascar? - ainda arrisquei perguntar-lhe.
- Pelo menos 200 dólares. - respondeu-me sem pestanejar.
Perante a minha reacção ainda disse que assinaria qualquer documento prometendo devolver o dinheiro...
Pondo de lado o facto do senhor ser deficiente, eu fico siderado com algumas situações. A pessoa em causa não me conhece de lado nenhum, obriga-me a perder parte do meu tempo fazendo-se valer da instituição em que trabalha para ser recebido, expõe a situação catastrófica em que se encontra afirmando que qualquer apoio serviria e depois pede 200 dólares?!
Yono.
Miguel S.
Deixado por Miguel S.
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