Ao falar do Luís, vieram-me à memória outros companheiros que entretanto partiram: o pequeno (grande) Henriques, o Damião e o João Paulo. Todos eles gente boa. Então o Wela Wela, inesquecível. Como a vida é estúpida. Dos tempos das sisaleiras de Porto Amélia, o "velho" Henriques tinha já 50 anos de Moçambique. Era daqueles, puros e duros. Valente. Um coração maior do que o homem. Daí o Wela Wela.
Dos mais velhos da empresa. Do tempo dos brazonados, viu-os chegar a todos. Sem grande instrução, imbatível no que fazia pelo calejo de décadas ao sol. Era um contador de histórias nato. Conhecia-os a todos, as suas manhas, virtudes e defeitos. Como ele se ria enquanto observava do seu canto a evolução das coisas. Ele, o ignorante que nada percebia. As movimentações, os negócios paralelos, a estupidez humana que emergia das mais variadas formas aqui e acolá. Então naquela rua, era um fartote. Sobretudo do outro lado. Era engraçado como com ele e a família era mais interessante estar do que com os outros. Pela simplicidade, ausência de pretenciosismos, não querer ser o que não era e, sobretudo, por não falar mal dos outros. Nem ele nem ninguém da família dele tinha esse costume. Coisa rara por ali. Aliás, sobre este tema voltarei mas parece evidente esta característica inata dos portugueses, a de falarem mal dos outros. Volta e meia pegava nele e na família (a mulher, a filha deficiente, a filha mãe solteira abusada por aquele ordinário e a neta, ignorante de tantas coisas) e íamos dar uma volta a Zalala indo por Inhangulué. As picadas no meio dos palmares, sempre a abrir. Os búfalos de água, em manada, a chafurdar no meio da água, a cascata no meio da plantação, os híbridos, o Marques, e o Índico ali, naquela praia enorme do Bons Sinais ao Macuse dos judeus, a 120 praia fora até Zalala. Água de lanho, fresquinha enquanto víamos o pessoal vindo da cidade, bicicletas pasteleiras penduradas nos ramos das árvores, não as fossem roubar...
Um dia o Wela Wela sentiu-se mal. Mesmo assim teimava em ir trabalhar. Dizia que era malária e que passaria logo logo. Nada. As febres não passavam. Optou-se pela evacuação para Portugal onde o visitei numa das minhas idas ao meu chão. Todo rijo, em casa, a dizer-me que tinha passado por um mau bocado mas que estava a recuperar bem e que nos íamos ver não dali a muito tempo em Moçambique. Sem que ele reparasse, a mulher e a filha iam-me fazendo sinais com a cabeça. Abraço dado e um último olhar após ter sido informado pela mulher que estava por meses.
Nunca mais vimos o Wela Wela. Eu e a África.
Miguel
Deixado por Miguel S.
| Recados (12)
| Tirem-me daqui!
| Topo %0