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janeiro 27, 2006
Wela Wela
Ao falar do Luís, vieram-me à memória outros companheiros que entretanto partiram: o pequeno (grande) Henriques, o Damião e o João Paulo. Todos eles gente boa. Então o Wela Wela, inesquecível. Como a vida é estúpida. Dos tempos das sisaleiras de Porto Amélia, o "velho" Henriques tinha já 50 anos de Moçambique. Era daqueles, puros e duros. Valente. Um coração maior do que o homem. Daí o Wela Wela.
Dos mais velhos da empresa. Do tempo dos brazonados, viu-os chegar a todos. Sem grande instrução, imbatível no que fazia pelo calejo de décadas ao sol. Era um contador de histórias nato. Conhecia-os a todos, as suas manhas, virtudes e defeitos. Como ele se ria enquanto observava do seu canto a evolução das coisas. Ele, o ignorante que nada percebia. As movimentações, os negócios paralelos, a estupidez humana que emergia das mais variadas formas aqui e acolá. Então naquela rua, era um fartote. Sobretudo do outro lado. Era engraçado como com ele e a família era mais interessante estar do que com os outros. Pela simplicidade, ausência de pretenciosismos, não querer ser o que não era e, sobretudo, por não falar mal dos outros. Nem ele nem ninguém da família dele tinha esse costume. Coisa rara por ali. Aliás, sobre este tema voltarei mas parece evidente esta característica inata dos portugueses, a de falarem mal dos outros. Volta e meia pegava nele e na família (a mulher, a filha deficiente, a filha mãe solteira abusada por aquele ordinário e a neta, ignorante de tantas coisas) e íamos dar uma volta a Zalala indo por Inhangulué. As picadas no meio dos palmares, sempre a abrir. Os búfalos de água, em manada, a chafurdar no meio da água, a cascata no meio da plantação, os híbridos, o Marques, e o Índico ali, naquela praia enorme do Bons Sinais ao Macuse dos judeus, a 120 praia fora até Zalala. Água de lanho, fresquinha enquanto víamos o pessoal vindo da cidade, bicicletas pasteleiras penduradas nos ramos das árvores, não as fossem roubar...
Um dia o Wela Wela sentiu-se mal. Mesmo assim teimava em ir trabalhar. Dizia que era malária e que passaria logo logo. Nada. As febres não passavam. Optou-se pela evacuação para Portugal onde o visitei numa das minhas idas ao meu chão. Todo rijo, em casa, a dizer-me que tinha passado por um mau bocado mas que estava a recuperar bem e que nos íamos ver não dali a muito tempo em Moçambique. Sem que ele reparasse, a mulher e a filha iam-me fazendo sinais com a cabeça. Abraço dado e um último olhar após ter sido informado pela mulher que estava por meses.
Nunca mais vimos o Wela Wela. Eu e a África.
Miguel
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Comentários
Saudade ...
Tira o rancor que se nota na "voz", os adjectivos "sonantes" e deixa o coração "fluir", que um dia destes, sem quereres, vais escrever um texto, quem sabe sobre a forma de livro, que outros que não só eu e mais alguns irão apreciar bastante.
Quando voltar ao meu solo, de pé, espero eu, não é de Àfrica que vou ter saudades mas de "Wela Wela(s)" como tu?
E esta, hem?
Nem eu tava à espera que saísse assim ..., deixei o coração "fluir".
Um abraço e cheio de amor, que os homens de bem também se amam.
Manuel
Publicado por: Manel (2 de seguida?) em janeiro 28, 2006 08:39 AM
Rancor Manel? Nada disso. Apenas as coisas como elas são. Já falámos muito sobre isso e do que se vai apanhando aqui e acolá, sendo África o espaço onde se evidenciam mais os aspectos positivos/negativos dos outros. Que desprezo muitas posturas sim, é verdade. Ao ponto de em tempos ter dito a alguém em Moçambique que a única coisa que tínhamos em comum era o passaporte... Adiante.
Os Wela Welas que vamos conhecendo pelo caminho ficarão mesmo para sempre, na memória. Como o teu amigo P..
Abraço.
Publicado por: Miguel em janeiro 28, 2006 11:52 AM
Hoje acordei mais frágil do que o costume ...
Sendo que a fragilidade, faz um Homem mais forte do que os demais. Era disso que te falava ...
Adiante, que de lágrimas furtivas não se faz a vida, um dia destes juntamo-nos e de copo na mão olhamos para um pôr do sol qualquer e choramos sem medida.
Beijos
Publicado por: hehehe em janeiro 28, 2006 01:43 PM
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