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julho 28, 2006
Dia de gritos
Não sei se é de mim que já não tenho muita paciência ou se isto é mesmo tudo normalíssimo e natural, mas hoje o dia está a ser de gritos. Um verdadeira espanto de choque da realidade. Ontem, a 15 minutos do encerramento dos bancos mas, sobretudo, das repartições fiscais, recebemos uma informação que nos obrigava a ter que efectuar algumas deslocações. Adiou-se para hoje. Logo cedo - cedo! só nós é que começamos a trabalhar cedo porque o resto é entrar tarde e sair cedo, logo à sexta-feira - tratámos de ter o cheque assinado e, acto contínuo, perante a minha estupefação conseguimos ter o cheque visado em 5 minutos. Um verdadeiro recorde! É a sorte de ter escolhido um banco que, por norma, está às moscas (hoje tinha 3 clientes). De seguida o martírio das Finanças. Balcão todo ele em granito. Tudo novo. Bom ar. Tudo muito top. 4 contribuintes e 6 funcionários na área em que estávamos. Só 1 estava a atender. Ao meu lado o que estava a ser atendido. A funcionária esticou o braço vagarosamente não para pegar na documentação mas num gesto em que aguardava que alguém lhe colocasse a documentação nas mãos. Tudo isto, sentada. Olhou para a documentação e:
- Cartão? - pediu a funcionária sem olhar para o sujeito passivo.
Entregaram-lhe o cartão. E olhou novamente para os papeis com a maior descontração do mundo.
- As folhas? Onde estão as folhas? - olhou-o com um desprezo fazendo-o sentir-se mesmo passivo.
- Não trouxe, era preciso? - disse baixinho enquanto tirava o telemóvel da mochila.
- O quê? Não trouxeste? E agora, como é que vou confirmar o que está aqui? - dizia ainda com ar de desprezo enquanto exibia as folhas ao sujeito passivo, folheando-as vagarosamente.
- (imperceptível)
- Já viste? Ele faz sempre isto, já faz de "prepósito"! É de "prepósito". - disse para a colega que estava ao lado batendo com as costas da mão nos impressos perante o olhar passivo do sujeito, mais passivo que nunca.
- (imperceptível ou então sou eu que estou a ficar surdo que nem uma porta)
- E agora? Como é que queres que confira? - interpelou-o abertamente à frente de toda a gente, na sequência de toda a cena para que todos os presentes percebessem bem o que estava a acontecer. Que drama. Tanta encenação.
E continuaram, tendo eu desligado por momentos enquanto respirava fundo, olhava para o relógio de parede, para o decote da colega e as calças amarelas justíssimas de alguém perto dos 50, para as unhas (literalmente) de 10cm ou mais da outra funcionária que ontem eram brancas e hoje já eram laranjas, todas retorcidas, para o ar zeloso do funcionário mais velho sentado mais atrás a despachar documentos, o grande molho de declarações e respectivos relatórios e contas referentes a 2005 amontoados mesmo ali, entre tantos outros pormenores que recheavam o espaço.
- Blá blá blá.
- Blá blá.
- Blá blá blá blá.
- Blá blá.
- Blá? Blá blá blá blá blá.
(E eu cheio de pressa a gritar por dentro enquanto ia fazendo caretas. Levantava a sobrancelha esquerda, depois a direita, semicerrava os olhos).
- Blá, blá blá, percebeste? Tens que voltar e trazer as folhas. - disse-lhe finalmente com ar de quem sabia o que estava a dizer e não podia fazer mais nada para o ajudar e que até tinha feito tudo o que estava ao seu alcance, para grande alívio nosso.
À vontade tudo isto demorou 15 minutos. E nós, os 4 à espera afinal é 6ª feira. Foram 3 horas de manhã perdidas com um visar de cheque, um preenchimento de modelo DLI, uma conferência não sei de quê, mais o carimbo não sei de que mais, mais o pagamento para me darem o DAR para depois ir mostrar o DAR à senhora do DLI a qual ainda me disse que para a próxima apanhava 100% de multa porque só podíamos assinar depois de estar selado. Como? Se ainda não fiz nada ia ser multado de quê?! Rasgava aquela merda e entregava um modelo sem ser assinado, ora!
Isto é desgastante.
Miguel
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Comentários
dá para perceber a irritação, mas este teu relato é verdadeiramente hilariante, principalmente porque se consegue imaginar a tua figura!
Mas como sempre, só tu para atentares nos pormenores...
beijinhos e come um allegro para desanuviar.
Publicado por: ac em julho 28, 2006 02:01 PM
É, um allegro. Beijinhos pá!
Publicado por: Miguel em julho 29, 2006 01:36 PM
Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Publicado por: Jo Ann em julho 29, 2006 09:04 PM
Sempre as unhas. Mas 10 cm ! São realmente grandes.
Publicado por: Tuga em agosto 2, 2006 07:42 AM
Epa Tuga, nem imaginas! Não sei se alguma vez viste em puto uma daquelas notícias ou documentários do género em que os indianos é que ganhavam sempre? Homens com umas unhas enormes todas retorcidas? Esta senhora era exactamente a mesma coisa. Todas as unhas retorcidas menos as dos dois dedos que usava para escrever no teclado ou usar a máquina de calcular. Um must para apreciadores da arte.
Publicado por: Miguel em agosto 2, 2006 08:48 PM
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