maio 14, 2006

C., um caso difícil [parte 4]

parte 4

O homem adapta-se facilmente a rituais muito próprios, fora da anarquia que acaba por constituir a grande cidade. Filho de uma, descobri apenas em Pemba como, afinal, um dia é mesmo enorme. Pela primeira vez experimentara a sensação de poder ir a pé de casa para o trabalho, gastando apenas 2 minutos. 2 minutos! Mesmo com passo lento, o máximo que fiz nunca terá ultrapassado os 5 minutos.

Foi com entusiasmo que me disseram que iria conhecer as pedreiras, em Montepuez. Finalmente sairia da cidade e entraria mato dentro, o verdadeiro mato. Iria com o C. ver como estavam as operações, a 200km da cidade. O C. era doido. Literalmente. A Toyota Hilux azul era, na realidade e como vim a saber mais tarde, a pick-up mais perigosa que poderia existir para aquelas estradas. Abalámos ao início da madrugada. O C. adorava impressionar. Ia fazer-me o baptismo. Imagino o que o sacana terá gozado à minha conta. Alguma vez na minha vida tinha eu visto uma picada?! Ou uma estrada em que eram mais os buracos do que o alcatrão? Sem vivalma? Só o verde imenso, entrecortado por uma ou outra aldeia? Agarrei-me onde pude dentro do carro enquanto pensava que a viagem ainda acabaria mal. 120-140km/h naquela merda de estradas? O gajo era chanfrado de todo. E como não podia ir pelo meio da estrada, passou a maior parte da viagem a alta velocidade com metade do carro fora da estrada e a outra no que restava. Sempre a acelerar. A comer capim. A levantar poeira. A fazer fugir cabritos, galinhas, porcos e pessoas. E eu nem sabia que o cabrão do C. era cego de um olho resultante de um grande acidente que tinha tido em Portugal. Aguentei-me. Que remédio.

Delirei com a paisagem. A imensidão. A baía de Pemba. As aldeias que se iam vendo e a forma como os produtos eram colocados junto à estrada para venda mesmo sem ninguém por perto. Sobretudo carvão, era o que mais se via. Parámos na tasca do português, penso que logo a seguir a Metoro - cruzamento que dava acesso a Montepuez, Mueda e Chiúre/Namialo - não me lembro do nome da aldeia, onde o tipo mandava. A tasca com o emblema do Sporting (claro!). Já nos seus 50 e muitos, 60 e poucos, tinha ido na guerra colonial para aquela zona e por lá tinha ficado. Arranjou mulher, moçambicana, com quem tinha muitos filhos. Era o único sítio onde podíamos comer, aquela hora, uma sandocha com omelete e um café batido a meio do caminho. Isso e dois dedos de conversa já que o carro não tinha nenhuma das actuais mordomias. Nem ar condicionado tinha, quanto mais leitor de CD...

Depois da curva da missão católica, Montepuez. Que susto. Aquilo é que era Montepuez? Aquilo?! Lá curvámos à esquerda e entrámos na "estrada" principal. Estrada. Uma picada toda rebentada pelas chuvas, com buracões descomunais e uma cidade sem energia eléctrica durante o dia. Apenas se ligava o gerador à noite e por umas 2 ou 3 horas. Parámos numa tasca também do Sporting do lado direito onde, pelas 6:30, encomendámos logo o almoço. As opções eram poucas: galinha ou cabrito. Só depois é que percebi porque é que eram essas as opções e a razão de encomendarmos aquela hora o almoço. É que ambos são animais de pequeno porte que, pela inexistência de condições de conservação a frio, permitiam que os restaurantes mantivem um stock vivo, permanentemente disponível para os potenciais clientes. O único senão era a necessidade de encomendar com muitas horas de antecedência para matarem os animais e prepará-los para a refeição. Feito.

Demos uma rápida volta pela "cidade". Era muito pequena. Ao fundo da rua principal, do lado esquerdo, um C-47 da FAP abandonado e o que restava dele sendo possível ver-se ainda a cruz de cristo. Do lado direito a casa do administrador ou a Administração Municipal, uma ou outra ONG e, umas voltas mais adiante, as instalações da empresa. Foi aí que conheci o Firmino. 250Kg em cima de uma pessoa. Vivia em Montepuez com a sua família. A mulher e a filha pequena, de uns 5 anos, pareciam perfeitamente adaptados. Nem queria acreditar. Adaptados? Ali? O Firmino, volta e meia, apanhava malária. Montepuez era um ermo terrível metendo medo à noite. Uma cidade tomada pela escuridão da noite apenas iluminada pelas chamas das velas dos vendedores informais estrategicamente colocados nas zonas mais importantes e onde se comprava de tudo um pouco. Aí e nas tascas que vendiam cerveja e refrigerantes quentes.

Em Montepuez, como em Pemba, o C. dominava. Gostava de demonstrá-lo. Ele era "o" moçambicano da equipa. Irrequieto, pouco tempo passou sem que abalássemos novamente a alta velocidade pela picada que nos faria chegar à pedreira em pouco tempo. Voámos e graças a ser novo e sem problemas de coluna, a viagem fez-se não sem que tivesse mandado duas ou três cabeçadas no interior. O gajo era passado. E eu ali já arrependido por ter aceite o convite para a viagem.

Já no regresso, a noite tinha já caído sobre a estrada. Nem vivalma. Só mato e o que da picada se podia ver com os máximos sempre ligados. Nenhuma luz artificial. O céu, preto, cheio de estrelas. Tantas. Nem mesmo o céu da serra da Freita tinha tantas. Demorávamos a chegar até que, após mais uma curva com o carro indeciso se permanecia metade dentro ou se capotava mesmo, as luzes de Pemba apareceram no meio da escuridão para grande alívio. Ah como sabia bem regressar à civilização, à data também conhecida por Alto Gingone!

Miguel

Parte 1
Parte 2
Parte 3

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fevereiro 25, 2006

Minha Pemba!

Arrepiei-me ao ver fotografias de Pemba, onde vivi durante quase 2 anos (1995-1996). Magnífica, fantástica e para sempre, cá dentro. Obrigado Jaime, por ires mantendo as recordações vivas.

Miguel

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janeiro 27, 2006

Wela Wela

Ao falar do Luís, vieram-me à memória outros companheiros que entretanto partiram: o pequeno (grande) Henriques, o Damião e o João Paulo. Todos eles gente boa. Então o Wela Wela, inesquecível. Como a vida é estúpida. Dos tempos das sisaleiras de Porto Amélia, o "velho" Henriques tinha já 50 anos de Moçambique. Era daqueles, puros e duros. Valente. Um coração maior do que o homem. Daí o Wela Wela.

Dos mais velhos da empresa. Do tempo dos brazonados, viu-os chegar a todos. Sem grande instrução, imbatível no que fazia pelo calejo de décadas ao sol. Era um contador de histórias nato. Conhecia-os a todos, as suas manhas, virtudes e defeitos. Como ele se ria enquanto observava do seu canto a evolução das coisas. Ele, o ignorante que nada percebia. As movimentações, os negócios paralelos, a estupidez humana que emergia das mais variadas formas aqui e acolá. Então naquela rua, era um fartote. Sobretudo do outro lado. Era engraçado como com ele e a família era mais interessante estar do que com os outros. Pela simplicidade, ausência de pretenciosismos, não querer ser o que não era e, sobretudo, por não falar mal dos outros. Nem ele nem ninguém da família dele tinha esse costume. Coisa rara por ali. Aliás, sobre este tema voltarei mas parece evidente esta característica inata dos portugueses, a de falarem mal dos outros. Volta e meia pegava nele e na família (a mulher, a filha deficiente, a filha mãe solteira abusada por aquele ordinário e a neta, ignorante de tantas coisas) e íamos dar uma volta a Zalala indo por Inhangulué. As picadas no meio dos palmares, sempre a abrir. Os búfalos de água, em manada, a chafurdar no meio da água, a cascata no meio da plantação, os híbridos, o Marques, e o Índico ali, naquela praia enorme do Bons Sinais ao Macuse dos judeus, a 120 praia fora até Zalala. Água de lanho, fresquinha enquanto víamos o pessoal vindo da cidade, bicicletas pasteleiras penduradas nos ramos das árvores, não as fossem roubar...

Um dia o Wela Wela sentiu-se mal. Mesmo assim teimava em ir trabalhar. Dizia que era malária e que passaria logo logo. Nada. As febres não passavam. Optou-se pela evacuação para Portugal onde o visitei numa das minhas idas ao meu chão. Todo rijo, em casa, a dizer-me que tinha passado por um mau bocado mas que estava a recuperar bem e que nos íamos ver não dali a muito tempo em Moçambique. Sem que ele reparasse, a mulher e a filha iam-me fazendo sinais com a cabeça. Abraço dado e um último olhar após ter sido informado pela mulher que estava por meses.

Nunca mais vimos o Wela Wela. Eu e a África.

Miguel

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janeiro 04, 2006

Nkhululeko

Acidentalmente descoberto, um novo blog a partir de Moçambique. O grande Moçambique também aqui.

Miguel

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junho 25, 2005

30 anos

Apenas mais uma data. E mais um motivo para escrever algumas palavras. As fortes mudanças que se registaram no país nos últimos anos. Têm vindo a público notícias menos boas sobre a actual situação do país ao nível alimentar, das insuficiências alimentares que ocorrem actualmente.

Para além de todos os males provocados pelos homens e as suas desavenças, Moçambique tem pago uma pesada factura das alterações climáticas que vão assolando o planeta. Ora apanha com secas tremendas, ora sofre as consequências de fartas inundações. No período em que vivi em Moçambique, vivi as cheias do sul com a Província onde vivia na altura permanentemente a sofrer as consequências da ausência de chuva. Dois ciclones atingiram o país, com o primeiro a passar ao largo em Cabo Delgado, atingindo em cheio Nampula e a Zambézia em 1995 ou 1996. Depois, um novo ciclone em 1999 (ou 98?) que nos passou ao largo na Zambézia mas foi atingir impiedosamente Sofala afundando um dos nossos arrastões no Porto de Pesca da Beira, tendo este ficado literalmente na vertical como se de um foguetão se tratasse pronto a ir para o espaço...

Muito se fez desde então. Um país que logrou ser o mais pobre do mundo durante anos a fio, conseguiu alguns milagres. Outros seguir-se-ão sem dúvida. Acredito que daqui a 30 anos, Moçambique encher-nos-á de orgulho pelo que conseguiu realizar.

Aos meus amigos moçambicanos, aquele abraço.

Estamos juntos!
Miguel S.

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junho 01, 2005

C., um caso difícil [parte 2]

parte 2

Em Maputo a recepção costumeira para quem chegava pela primeira vez. Fiquei naquele verão moçambicano na casa do M. e da R., com o puto e o doberman. Tudo novo e interessante. Sem tempo para mais pois trataram de me meter no avião para Pemba na tarde seguinte. Ainda entusiasmado, entrei no avião em Maputo e fui observando todos os detalhes que o vôo me permitia observar. A descolagem com uma vista interessante sobre Maputo, o recorte da costa, as tripulantes com penteados arrojados e passageiros com características tão díspares, a escala em Nampula e, finalmente, a magnífica Pemba já ao fim do dia. Sala pequena e temperatura ao nível de uma sauna a das chegadas com as malas a serem atiradas à mão para o "tapete". A romaria costumeira da cidade, quase ilha, rumo ao aeroporto para ver quem chegava e quem partia nos dois vôos semanais. Infalível.

Naquele dia fomos jantar ao Nautilus, o melhor sítio que lá havia. Um bife de marlin na companhia do U. e do C., com o Carlos H. da Lomaco na mesa ao lado (quem diria?). As imagens nocturnas da cidade eram algo desoladoras e acabaram por ser confirmadas na manhã seguinte quando o U. andou comigo pela cidade. "Vamos ver a cidade?", perguntou-me logo pela manhã ao que anuí com interesse pois estava cheio de curiosidade. Abalámos estrada fora em direcção ao centro, na única estrada que dava acesso à cidade. Do Alto Gingone, onde estávamos baseados, até à cidade distavam uns 4 ou 5 km de uma estrada larga com 4 faixas. Do lado esquerdo o aeroporto, do lado direito a casa da namorada oficial do C., mais à frente do lado esquerdo as ruínas de qualquer coisa e as de um avião que se tinha despenhado havia uns anos, até que à entrada da cidade o quartel à esquerda, os armazéns do Osman Yacub, a Toyota dos animadíssimos "gordos" (já não me lembro do nome) , o take-away mais famoso à esquerda depois da curva, a liquorstore, a LAM, a rotunda com o cinema ao ar livre em pedra do lado direito, em frente a "feira" e, do outro lado da rua, o Hotel Cabo Delgado. Rua acima, a zona comercial de Pemba, com o supermercado do lado direito, a loja do Faria do lado esquerdo, mais acima pequenas lojas onde se vendiam algumas iguarias e coisas de pequena monta com muitas capulanas à mistura. Nunca mais me esqueço da pequena livraria no canto do largo dessa avenida, por detrás do prédio da Geologia e Minas onde morava o Abdul Ibrahimo Pingalsi, e da cara do empregado quando comprei todos os livros que lá estavam: relíquias de outros tempos ao preço da chuva. Desde Mia Couto a Gulamo Khan, Lina Magaia e Eduardo White, entre outros, levei tudo. Até livros em português feitos pelos soviéticos [eram dessa altura, da URSS]. Do lado direito a Manica do Narciso e da sua grande mulher [literalmente], as vivendas e o palácio do governador para depois chegarmos ao miradouro no cimo da avenida e a grandiosa baía de Pemba. Fomos por ali abaixo, um jardim, a Administração Municipal do lado direito, mais abaixo o BCM e a casa dos Neru com os seus BMW naquelas estradas... o mercado municipal, à direita e depois a rua principal da baixa com o tasco do Santos, o Niassa Comercial do Claudino e a sua máquina de calcular mecânica à manivela e mais umas lojecas com muitas capulanas. Virámos ao fundo da rua, passando por detrás da baixa e observando o bairro à esquerda conhecido por Paquite cheio de tanzanianos e, quanto a mim, igualmente de mwanis. É algo perigoso, disse-me o U. Confesso que andei por lá muitas vezes. Mais à frente o Ruela à esquerda, subimos a picada que dava a volta a parte da cidade junto ao mar, com as instalações da TDM do lado direito, as dos fuzas abandonadas até chegarmos à zona dos "maus cheiros" antes da rotunda que dava acesso ao Meia-Via.

Em menos de meia-hora demos a volta à cidade. Fiquei medianamente aterrorizado ficando este sentimento esbatido pela magnífica praia do Wimbe. E do que mais tarde vim a conhecer, mesmo o C. um caso difícil...

Yono.
Miguel S.

parte 1

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maio 27, 2005

C., um caso difícil

parte 1

Era puto quando cheguei a Pemba, naquela que foi a minha primeira grande aventura por terras d'África. No início do ano de 1995 ainda se viviam tempos de uma estabilidade relativa no norte, após décadas de guerra, criando um ambiente único para quem do continente apenas conhecia o Kruger, na passagem de ano de 1991 para 1992, na desenvolvidíssima África do Sul de De Klerk já no período de transição pós fim do Apartheid, umas [ainda possíveis] voltas a pé por Small Street e área envolvente, as hoje abandonadas SunTowers e a magnífica viagem de Joanesburgo à entrada do Kruger passando por Pretória. Férias idílicas de uma África que vai rareando. Quem conheceu o hinterland há uns anos atrás, nota bem a diferença: Suazilândia, Malawi e Zimbabwe para citar três exemplos de países que decaíram significativamente por razões diversas.

Na altura Moçambique representava uma grande aventura, sobretudo quando o destino não era Maputo. Um teste de resistência para todos nós, putos e kotas. Para a malta da minha idade, a geração perestroika/glasnost, Moçambique, entre outros motivos, representava a possibilidade única de poder viver presencialmente a mudança de um regime marxista-leninista com economia planificada para uma democracia com economia de mercado, era a oportunidade única de poder viver as mais diversas alterações sociais/institucionais/organizacionais e outros -ais, cheirar um pouco do nosso passado ainda e sempre bem visível, viver os primeiros passos de um país a renascer das cinzas após a ONUMOZ.

Yono.
Miguel S.

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abril 03, 2005

Paulo se tivesse uma aparelhagem de filmar seria melhor ...

Yono.
Miguel S.

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março 22, 2005

As crónicas do Paulo [2]

Yono.
Miguel S.

PS-Mais uma da colecção do Ulisses Pereira. Contextualizado fez-nos rir bastante em determinada altura...

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março 19, 2005

"asena dos chapas na cidade de maputo"

"omaior número dos trabalhadores que habitam nos bairros urbanos; estão numa situação tolorosa.depois da inutação que tivemos, para os homens que fazem os chapas cem; tiveram grande oportunidade;visto que as licenças que eles têm; por exemplo: central para t3, já não chegam mais; se querem chegar é ligaçao. assim coprão 4 mil meticais so ida.
mesmo isto, as paragens figam cheios, sinto pena das senhoras que não se consequem em tefronte da grande luta e dos mizeráveis de não tiverem dinheiro para licações só ida 4 mil meticais eida e volta 8 mil meticais.
os atrazos são muitos; nos sectores de serviços; dificultando como justificar. FALTAS DE ATRAZOS
ali e necessário ter uma paciência absoluta de um a outro perdoar oseucompanheiro quando o lhe pisar.
ali bufa-se amaneira por causa de se apertar muito.
sai cheiros de feijão; inlhancane; cacana; makovi EMAIS. awena!...
tudo quando se junta é um veneno que não se suporta no teu l;
vala pena comprar uma bicicleta do que esperar dos chapas!
disse; um dos passageiros hoje dentro do chapa.
alguém sai limpo em sua casa e chega no serviço sujo.
já envergonhado parece minha mulher não ter lavado aminha roupa. repetiu ele!
paulo muito calma já estáva a gravar para escrever.
assim saiu este jornal ladam nesta hora:
BUBLICIDADE LADAM"
paulo mitilage"

Yono.
Miguel S.

PS-Agradecimentos ao Ulisses Pereira pela facultação de tão precioso texto :)

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março 18, 2005

Paulinho, o homem dos 7 ofícios

Quando o conheci, em 1995, o Paulinho era o chefe da cozinha em Pemba. Pequenote, cerca de metro e meio, era o melhor cozinheiro que lá tínhamos. Treinado pelos italianos, ele sabia fazer pizzas, esparguete à bolonhesa, enfim um sem número de iguarias para nosso deleite uma vez ou outra. O que mais destoava nele era a troca dos "bês" por "pês" e então, de vez em quando, lá saía um "patatas" em vez de "batatas" quando perguntávamos o que era o petisco.

+ "Paulinho, o homem dos 7 ofícios" ?

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março 14, 2005

Ideias para Debate

O jpt fez alusão a este blog o qual é mesmo interessante, em particular para quem esteve em Moçambique no período 1995-2001 e acompanhou de perto estes acontecimentos.

Foi com agrado que reli um artigo saído então no Metical e que provocou uma grande surpresa entre nós, estrangeiros, pelo facto de focar alguém que bem conhecíamos. Este alguém foi, em determinada altura, alvo de alguns ataques direccionados ficando por saber até que ponto parte da informação dos artigos mencionados no Ideias para Debate não enfermam do mesmo.

De qualquer modo, é interessante ler sendo de realçar que o Metical, na minha perspectiva e de mais alguns companheiros de estrada, não era exactamente o Le Monde. E isto por conhecimento de "causa" relativamente a algumas matérias. Paralelamente, por razões profissionais e pessoais, passe a redundância, nem tudo o que parecia era pelo que algumas ilacções não corresponderiam de todo à verdade.

Yono.
Miguel S.

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fevereiro 13, 2005

Abraço jpt

O barbudo bonacheirão meteu-se [novamente] a caminho. Com muita pena ó machambeiro! Pena porque foi giríssimo reencontrá-lo na blogosfera alguns anos depois de ter deixado Moçambique, pela excelente qualidade, diversidade e novidades daquela terra que ia relatando. Independentemente da erudição transposta para a escrita, fazendo-me lembrar o Prof. Vasconcelos na Introdução ao Direito e verdadeiro terror dos caloiros.

Ainda puto, aterrei em Março de 1995 no aeroporto de Pemba. Naquela altura pouco ou nada havia para além do Nautilus e do Santos, na baixa. Éramos apenas três portugueses na empresa, os quais perfazíamos a totalidade dos recém-chegados à cidade. Era o U., o C. e eu. Mais ninguém. Na Província, para além de nós, havia ainda mais dois portugueses: o Firmino, encarregado da pedreira em Montepuez, e o jpt que, fiquei a saber depois, vivia para lá de Montepuez numa aldeia macua.

Em Pemba para além do Bar Viking, em frente ao AS e ao 7 andares, pouco ou nada havia para fazer em qualquer fim de tarde. O C., não sei se a pedido do U., procurou integrar-me e levou-me algumas vezes ao Viking onde, numa célebre noite, no meio de várias cervejas, foi-me apresentado o jpt que estava de regresso do mato. Sim, mato. Reencontrámo-nos algumas vezes na cidade, aquando das suas passagens fugazes em trânsito pela mesma.

Lembro-me perfeitamente de olhar para ele e ficar admirado pela audácia de ir para o mato. Sobretudo Montepuez. Eu, ao início, que já achava que não devia estar bom da cabeça por me ter enfiado num ermo como Pemba, fiquei estupefacto quando vi o que era Montepuez. Esta cidade distava 200km de Pemba, para o interior, em direcção à Província do Niassa. Uma viagem que era sempre uma aventura tal era o estado em que se encontrava a estrada, em particular depois de Metoro. Mas, apesar disso, todos nós encarávamos aquela viagem como uma aventura ao ponto de haver uma competição para ver quem era o mais rápido.

Montepuez era uma pequena cidade sem energia elécrica e sem uma única estrada asfaltada. A única energia eléctrica era fornecida por um gerador que apenas funcionava algumas horas por dia, se não estivesse avariado e se o combustível não tivesse acabado. A cidade, se é que se podia assim chamar, tinha basicamente uma rua onde se encontrava um velho C-47 da FAP (ou DC-3 mas na versão militar) em frente ao Posto Médico. Pouco ou nada havia na cidade. Basicamente nós (e talvez a Lomaco) representaríamos uma boa parte da actividade económica da zona. Nunca mais me esqueço da necessidade de encomendar o almoço assim que lá chegávamos por volta das 8h para estar garantido por volta das doze... Só havia dois pratos: galinha ou cabrito. Habitualmente vivos no quintal prontos para a panela a qualquer momento. Comida mais fresca seria impossível.

Recordo-me de ficar sempre satisfeito cada vez que regressava de Montepuez, onde nunca ficávamos mais do que umas horas, e, depois da noite caída e a alta velocidade pela picada/estrada fora, ver aparecer ao fundo a iluminação de Pemba. Sempre todos partidos. Montepuez era difícil, nem que fosse só por algumas horas quanto mais as semanas que lá passava o jpt.

Vai daqui um abração e p'rá frente!
Miguel S.

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fevereiro 10, 2005

[Ainda a] Ilha de Moçambique

Naquele fim-de-semana prolongado, decidimos pegar no carro e rumar a sul para então tentar chegar ao lago Niassa aventurando-nos pelas estradas dessa província. Em Pemba, para além da praia, não havia muito a fazer e o local mais distante que visitávamos era Montepuez, tal era o estado das estradas.

Um ano antes (1995) tinha conseguido fazer Pemba-Nampula em apenas 4 horas, já que era vital entregar o passaporte do C. à tripulação da LAM . Disso dependia a sua evacuação para a África do Sul atendendo ao seu estado crítico. 400km de "estrada" devido à existência de apenas 2 vôos semanais para Maputo. Mas adiante que essa é outra história.

Contas feitas, faríamos com mais calma umas 5 horas até Nampula e na manhã seguinte um "salto" até Lichinga. Para azar nosso, sem pensar sequer nos estragos provocados pela época das chuvas no troço Metoro-Namialo, demorámos cerca de 12 horas até atingirmos a cidade dos estranhos montes rochosos. Após uma viagem solitária de 200km de mato durante a noite, onde o medo abundou devido aos ataques na estrada, encontrámos uma Nampula como se tivesse saído de uma batalha cheia de morteiradas. Os hoteis eram terríveis, na altura. Tinha conhecido a gerente do Hotel Tropical e as suas magníficas sobrinhas em Pemba pelo que foi a primeira opção. De fugir. O Hotel Nampula ainda estava de portas abertas mas sem hóspedes. Pudera... Acabámos por ficar no Lúrio. Encontrar um local para jantar acabou por constituir uma nova aventura. Enquanto o jantar estava a ser preparado, ainda tivemos tempo para dar uma volta pela cidade e ver o hospital onde os médicos russos diagnosticaram estado de pré-loucura ao C., amarrando-o à cama tal não era o estado em que se encontrava de agitação, insultos, berros e tudo mais desconexo, sem ninguém perceber porque motivo todos os sedativos que lhe davam não surtiam qualquer efeito. Não existiria na Rússia de então a palavra ressaca?!

No dia seguinte, adandonado já o sonho do lago depois do esforço da véspera, optámos por ir para a Ilha de Moçambique. Magnífica, vista do continente. A ponte estreita. Ao aproximarmo-nos da ilha, a grande desilusão pelo estado degradado em que se encontrava. Maravilhados com a calçada portuguesa que ainda estava lá em frente ao palácio cor-de-rosa, o fontanário, os candeeiros, os bancos com vista para o canal de águas azul-esverdeadas por cima de areias brancas. Nem vou descrever o local onde dormimos a que chamavam, na altura, hotel e nem sequer onde comemos após uma espera de várias horas pelas galinhas. Antes de cozinhadas, ainda tinham que ser mortas, depenadas e preparadas previamente às brasas.

Tudo isto a propósito de um artigo publicado na The Economist onde, com muita pena, constato que 9 anos depois pouco terá mudado.

Yono.
Miguel S.

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A tradição [ainda] "manda"

A propósito da história anterior fica igualmente o registo de outra que vivi em Moçambique, lá, no norte.

Andávamos todos espantados com os ritmos de roubos que aconteciam na empresa, em particular nas oficinas. Os electrodos eram um dos alvos preferidos para os biscates lá de casa ou para fornecer os clientes biscateiros, a troco de um copo de nipa ou alguns cigarros na palhota na segunda fila, ao lado da fábrica. Até que um célebre dia, mais audazes, roubaram algumas peças importantes dando origem a uma investigação mais aprofundada. Resultado: nada. Ficámos na mesma. Até que o C. teve a brilhante ideia de irmos buscar um xé ou autoridade tradicional para ver se descobríamos quem teria sido. De surpresa, a meio do turno, enfiámos o xé nas oficinas e chamámos os trabalhadores todos. E não é que os ladrões começaram a tremer e um chegou mesmo a desfalecer!? Digo ladrões porque admitiram o roubo. E eu que não acredito nestas "coisas transcendentais"?

Yono.
Miguel S.

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janeiro 09, 2005

Pagamelo Pemba

Dois
Conduzindo velozmente pela 106, como já era hábito após um almoço na praia do Wimbe no regresso à fábrica, completamente absorto nos seus pensamentos, Daniel Saraiva deparou-se repentinamente com um espectáculo completamente novo e desolador: a algumas centenas de metros encontrava-se o corpo de uma criança estendido no meio da estrada e, logo adiante, um carro branco abandonado. Perante o imobilismo dos que presenciaram o acidente, Daniel abandonou o carro na vã tentativa de auxiliar a criança. O espectáculo era macabro. Esvaindo-se em sangue jazia Abdul Carina no alcatrão quente das catorze horas enquanto Manuel Catorze, em choque, chorava e gritava girando sobre si próprio. De Abdul, o oposto… O único som que se lhe ouvia era a respiração frenética e desconcertada, inconsciente, de que os olhos semi-cerrados eram a prova mais evidente. O corpo estava completamente dobrado, numa posição impossível até para o melhor contorcionista…

De repente, emergindo do meio da vegetação, surgiu a mãe de Abdul brandindo a sua catana escurecida pelo uso ao mesmo tempo que gritava e chorava: — Abdul! Abdul! Aiêêêê, aiêêêêêê!— avançando rapidamente para o local onde se encontrava o filho. Logo atrás dela corriam duas outras mulheres munidas do mesmo instrumento, fazendo Daniel sentir alguns calafrios. Com a ajuda de quem ainda tinha algum discernimento, colocaram Abdul e a sua mãe na parte de trás da carrinha onde se deslocava e, já com Manuel Catorze mais calmo a seu lado, dirigiram-se a toda a velocidade para o Hospital Provincial na tentativa de salvar o petiz. Rolando por cima de buracos e todo o tipo de materiais que se encontravam no meio do caminho, em pouco menos de cinco minutos colocavam Abdul na maca das urgências do Hospital para de lá não mais sair com vida.

Daniel ainda tentara consolar quer a mãe, certa da morte do filho, quer o condutor, consciente da situação em que se encontrava. Após uma breve troca de palavras com o seu amigo Moisés, polícia makonde, de serviço na altura no Hospital, Daniel retomou o seu caminho vindo a saber, posteriormente, que a criança não tinha aguentado o embate. Manuel entrou nos calabouços da cidade, como já era habitual naquelas situações, para aí pernoitar e sair no dia seguinte. A manutenção da sua vida dependia desta imposição.

Yono.
Miguel S.

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janeiro 07, 2005

[Descrição de] Pebane

Localizada a nordeste de Quelimane, capital provincial, a pequena localidade de Pebane consistia basicamente numa rua com o que restou das casas e prédios do período colonial. Sem energia eléctrica, foi lá que vi pela primeira vez na vida frigoríficos e congeladores a petróleo! Lá não se passava rigorosamente nada. Toda a actividade económica do tempo colonial tinha desaparecido completamente. O aeródromo estava em ruínas, o farol apodreceu com o tempo e estava tombado sobre si mesmo, na rua principal as ruínas de um prédio dinamitado pela Renamo, as ruínas de um posto de abastecimento do tempo colonial completamente destruído, o porto de nome já que de resto era virtual, o único banco que não movimentava nada, as ONGs sempre presentes nestes meios como principais empregadoras...

Uma das poucas vezes que me desloquei a Pebane (cinco no total) fui obrigado a pernoitar pois já não tinha luz do dia suficiente para o regresso. Tive que dormir numa palhota-hotel, redonda, com telhado de folha de coqueiro e aberto entre o telhado e a parede da palhota para circulação de ar. A palhota estava dividida ao meio com casa-de-banho entre os dois quartos. Ultra sofisticado. Mosquitos eram aos milhões. Sem energia. Lá vivia-se apenas com a luz do sol. Sem computadores. Sem televisão. Sem nada eléctrico.

O mais giro eram as refeições. O que quer que seja tinha que ser encomendado com muita antecedência pois eram poucos os visitantes e, também por isso, era sempre necessário matar o animal primeiro (galinha, cabrito ou ir à procura do peixe à praia...).

Ficará para sempre na memória, a "discoteca" improvisada com o apoio de um pequeno gerador na base de cimento do "complexo" turístico Jimáyma, Lda. Nunca na minha vida tinha ouvido o som de tantos chinelos a arrastar numa base de cimento cheia de areia e terra...

Yono.
Miguel S.

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dezembro 20, 2004

Eleições em Moçambique: e agora?

No que parece recolher um cada vez maior número de opiniões e declarações, tudo aponta para que as eleições em Moçambique tenham sido alvo de irregularidades. As "anomalias" continuam a aumentar segundo a notícia hoje publicada na África do Sul. Hoje, as ONGs que acompanharam o processo eleitoral declararam haver algumas evidências que suportam a contestação da Renamo-UE. Fala-se, por exemplo, de votações na ordem dos 92 a 101% em algumas mesas de voto com a grande maioria a recair na Frelimo e Guebuza quando a média estimada ao nível nacional é para uma participação de 30%.

A mim o que me espanta é a grande evolução da Frelimo no país, consagrando-se vencedora em 9 das 11 províncias com um candidato que não será dos mais queridos em Moçambique.

Yono.
Miguel S.

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Vôo alucinante ao Ibo [sinopse]

Relato da viagem à ilha do Ibo no âmbito da geminação das cidades de Pemba e Aveiro, ocorrida em 1996 (daí a falta de memória para muitos dos detalhes da mesma) e alinhavada pelo Uli (sorte a minha estar lá na altura).

Vôo a bordo de um Norman Pilatus da TTA pilotado pelo malogrado Comandante Luís Faria, numa viagem que me marcará para sempre dado adorar voar.

A ilha do Ibo, localizada no nordeste do país já próximo da Tanzânia (12°20'34S e 40°36'27E) desempenhou um papel fulcral na afirmação da expansão portuguesa naquela região do planeta.

Os intrépidos "voadores": Cmdte Faria, Miguel S., Uli P., F. Cab, A. And, Coronel e autarca de Aveiro.

Yono.
Miguel S.

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Vôo alucinante ao Ibo [4-fim]

4. Regresso a Pemba: adrenalina ao máximo!
"Agora estamos a sair da Quirimba já a regressar a Pemba" blá blá blá, continuava a melga do coronel, enquanto filmava. O avião já a postos, hélices a fazer vibrar o avião e um último adeus aos Gessner à margem da pista junto ao seu velho jipe. Ah o Índico naquelas paragens é mesmo qualquer coisa do outro mundo. Seguimos para Pemba a uma altitude inferior à da vinda, as praias iam-se sucedendo assim como pequenas ilhotas, sobrevoámos Pangane - ainda tentei ver algum elefante mas sem sucesso - e finalmente, ao longe, a cidade.

Perto da ponta do diabo o vôo ganhou uma dinâmica [muito] mais vertiginosa. O Faria ainda disse lá para trás qualquer coisa colocando alguns dos passageiros algo nervosos, em particular o Uli e o Cab. Picou o avião em direcção ao mar reduzindo o tecto de vôo a uns meros metros dando a sensação de estarmos a rasar a água. Atravessámos o estreito que dá acesso à baía de Pemba a alta velocidade em direcção ao imbondeiro perto da casa do Ruela e, já lá perto, o Faria puxou o manche de tal forma que sentimos bem a força do avião, primeiro a subir e depois a guinar à direita, permitindo-nos ver de lado os barcos de pesca, a casa do Ruela e depois a marginal que dava acesso ao porto. Com a baixa da cidade por baixo de nós, o Faria ainda fez dois círculos bastante apertados por cima do porto com os tripulantes do navio que estava atracado a olharem para o céu assim como as demais pessoas que se encontravam na zona. De lado, completamente de lado dando a sensação de estarmos com uma inclinação de 90º. Já com o pessoal lá atrás a berrar e a agarrar-se aos bancos da frente (Cab, Cab...), o Faria seguiu então em direcção ao Meia-Via, passando por cima do Paquite, do farol, da TDM, e picou aí em direcção ao mar passando muito baixo em frente ao Nautilus e da praia do Wimbe ao ponto de reconhecermos as pessoas. De tal forma que era tudo a dizer adeus (a malta do Engenheiro, entre outros). Estando ao lado do piloto, confesso que comecei a ficar apreensivo quando vi a discoteca Aeroclube à nossa frente e a tentar adivinhar pelo Faria quando é que ele ia puxar o raio do manche. Chegou o mais perto que pode e já com o edifício bem perto nova subida a alta velocidade para depois a curva à direita em direcção ao Alto Gingone. O estômago estava às voltas e a excitação ao rubro. Lá atrás respirava-se de alívio. A aterragem foi calma no aeroporto já perto do fim da tarde. Apesar do nervosismo de alguns, este vôo ficou na memória de todos. Onde mais seria possível senão onde ainda se respira alguma liberdade?

[Ao Faria, o meu muito obrigado e desejo de bons vôos onde quer que esteja.]

Yono.
Miguel S.

1.Os preparativos
2. Do que vimos até lá
3. Quirimba: o sonho tornado realidade?

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dezembro 15, 2004

Vôo alucinante ao Ibo [3]

3. Quirimba: o sonho tornado realidade?
Já não podia mais ouvir o raio do coronel e a sua máquina de filmar para a qual falava de uma forma monocórdica, em jeito de documentário em terras de áfrica...Até no avião! Xô! Xôoooo! Felizmente, o barulho ensurdecedor das hélices abafou o relator. Ver o Ibo a ficar para trás, olhando de lado pela janela para as ruas estreitas e cheias de casas semi-abandonadas entristeceu-em um pouco. Uma sensação estranha de nostalgia improcedente.

Pouco depois da descolagem, lá apareceu ela. Verde. Alinhada. Bela. Impoluta. Prenha de coqueiros geometricamente alinhados. Fizemos a abordagem do costume. Um vôo baixo em direcção a sueste a alta velocidade e Herr Gessner a sair de casa para entrar no jipe. Subimos ligeiramente sempre a abrir e curva algo apertada à direita já depois da ilha para aterrarmos na pista que a atravessava em boa parte, também ela verde do capim cortado, virados para norte. Notou-se alguma inquietação a bordo, já que alguns dos passageiros tinham pavor a aviões... O Faria era bom. Corte dos motores antes do touch down. Que gozo ir ao lado dele e aperceber-me dos truques todos. Ver o Gessner ao lado do jipe com o seu avião particular mais à frente.

Ah o Gessner! Já bastante idoso mas com um porte admirável. Ele e Frau Gessner há décadas que viviam na ilha. O seu palmo de terra longe da terrífica Alemanha do pós-guerra, fria, cinzenta, taciturna, destruída e violada até não poder mais. O palmar. A praia paradisíaca. Quão diferente de uma qualquer Leipzig ou Neumarkt! Ao longo do tempo, desenvolveram um estilo de vida muito própria que fariam corar de inveja, eventualmente, os anacoretas pós-modernos. Uma vez, numa das idas à cidade eis que me deparei com um velhote enorme de cabelo branco a bordo de um jipe a cair de podre. Perguntei quem era ao que prontamente me responderam. Passei, também eu, a ser seu cliente: do magnífico queijo e manteiga que produzia na ilha.

Apresentações feitas, levou-nos até casa onde fomos recebidos pela Frau Gessner. Insisto em chamar-lhe Frau tão germânica se preservou em terras do Índico. Muito simpática. A casa um verdadeiro sonho. Uma decoração doutros tempos. De alguém que, afastado do mundo, soube preservar num espaço que era o seu as memórias doutros tempos. Os livros antigos, a televisão cheia de rugas, o mobiliário original. Descobri então que não eram só queijo e manteiga as originalidades daquele casal auto-suficiente. Bebemos igualmente do seu café e compota! Magnífico. Mostraram-nos as pequenas casas viradas para a praia e a meia dúzia de metros da água. Recebiam turistas provenientes da África do Sul e da Europa. Na extremidade noroeste da ilha havia uma pequena povoação, imposição (disseram-nos mais tarde) dos governos pós-independência, de onde provinha a grande maioria dos trabalhadores da ilha. Os pastores, os ordenhadores, os apanhadores de coco, os escafuladores, os ensacadores, os fogueiros, os descascadores, os mainatos entre tantos outros. Eles e as suas famílias.

Contemplámos a paisagem virada para o mar aberto, tão bonita ela era. O azul esverdeado da água cristalina. A areia quase branca e limpa escurecida aqui e acolá pela sombra dos coqueiros. A pequena rebentação por cima do recife de coral. Constatado o paraíso e dois dedos de conversa mais tarde, embarcámos novamente. Mal sabíamos nós a grande surpresa que o ás voador nos tinha reservado...

Yono.
Miguel S.

1.Os preparativos
2. Do que vimos até lá

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dezembro 14, 2004

Vôo alucinante ao Ibo [2]

2. Do que vimos até lá

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dezembro 11, 2004

Vôo alucinante ao Ibo

1. Os preparativos

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dezembro 10, 2004

Sampaio, deputados e outros em Quelimane (memórias)

A comitiva que foi receber o Presidente da República à pista do aeroporto era considerável. Até eu lá estava apesar da carga de malária que tinha em cima. Naquele fim de tarde em 1997, tudo o que era gente importante da comunidade portuguesa fez questão de marcar presença. Foi impressionante ver o C-130 da Força Aérea Portuguesa fazer-se à pista e o chinfrim que fez até chegar à nossa beira. Depois dos homens do costume lá apareceu ele, aquela figura frágil: Jorge Sampaio. Foi tudo muito rápido porque a visita seria apenas de algumas horas apesar de passar a noite na cidade. Ponto de reencontro com a comunidade portuguesa: o Hotel Chuabo (a melhor sopa de Moçambique! Ai D. Amélia!...).

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dezembro 08, 2004

Moçambique: números "interessantes" [99 revisited?]

Entre reclamações de fraude e situações recambolescas, mas matematicamente possíveis, as contagens paralelas da Rádio Moçambique são um espanto. Os resultados [parciais] por eles apurados dão conta de 1.657.130 votos nas legislativas para os 2 maiores partidos (Frelimo 1.170.096|66,7% e Renamo-UE 627.242|33,3%) e de 1.797.338 votos nas presidenciais (Guebuza 1.104.920|65,1% e Dhlakama 552.210|34,9%).

Há alguma coisa estranha nos números apresentados?! Claro que não. Quaisquer diferenças dever-se-ão aos brancos+nulos+outras forças políticas, certamente.

Yono.
Miguel S.

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